Resistência Arco Íris

Resistência Arco-Íris

Você sabe quem foi Dandara Ketlyn?

(Por Neto Lucon)

A história e o destino de Dandara não é diferente de muitas travestis do Brasil. Não é diferente da Gisberta, da Herika, Keytlin, Luana e tantas outras que tiveram suas vidas ceifadas pela LGBTIfobia. Seja em vida – e na peleja pela existência trans – ou no fim trágico, pela intolerância e ódio pela identidade de gênero. Afinal, o Brasil é o país que mais mata travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades no mundo, de acordo com a ONG Transgender Europe.

Embora sempre se identificasse com o gênero feminino, ela só revelou ao mundo que era travesti quando atingiu a maioridade. Aos 18 anos, mudou completamente o guarda-roupa, passou a tomar hormônios femininos (que desenvolveram os seios) e a pedir que fosse chamada de Dandara.De blusinha e shorts, era o suficiente para que tivesse vários direitos tolhidos e conhecesse o preconceito por sua identidade de gênero: a transfobia.

Certa vez, uma amiga declarou que ela frequentava muito o bairro onde morava. “Ela era alegre e era sempre notada quando estava na rua. Por conta disso, era vítima de comentários e chacotas" -.

Aos 25 anos, foi tentar a sorte na conhecida cidade das oportunidades, São Paulo, destino de muitas travestis do Nordeste. Foi cabeleireira, mas também descobriu que as oportunidades no mercado formal de trabalho para travestis eram raras. As portas estavam fechadas pelo preconceito. Pelejou por São Paulo até os 35 anos – a expectativa de vida de uma travesti no Brasil – quando retornou a Fortaleza e passou a morar com a mãe.

Se por um lado era vítima de transfobia em Fortaleza, por outro Dandara era acolhida e admirada por muitas pessoas, sobretudo no bairro onde morava. Era alegre, bem-humorada e prestativa. Costumava ajudar a todos que pediam, mesmo quando estava cansada ou quando acabava de chegar em casa.

Nos últimos anos, costumava acordar por volta das 5h, comprava pão e às 6h já estava servindo o café-da-manhã para a mãe. Ela ajudava a mãe, dona Francisca, nas atividades domésticas e também vendia roupas usadas – que ganhava de várias pessoas – para complementar a renda de casa.

Francisca relata que dentro de casa, era possível vê-la bebendo café, fumando cigarro e deitada em frente à televisão. Nas ruas gostava de beber e brincar com as pessoas. O seu sonho era montar um salão para dar continuidade à carreira de cabeleireira e comprar um carro.

Na última imagem que foi vista antes do espancamento ela deu tchau e sorriu para quem estava ao seu redor. Esta era a Dandara.

O ASSASSINATO

No vídeo divulgado nas redes sociais, a vítima aparece caída no chão enquanto sofre violência de vários homens. Ela não ofende e nem revida as pauladas, pedradas e chutes. Derramando sangue, é chamada de “viado sem peito”, “imundiça de calcinha e tudo” e é ordenada a subir em uma carriola.

Ao ser colocada em cima, as agressões continuam. Dandara apresentava sinais de agressão na cabeça e por todo o corpo. A pessoa que filma diz em tom de deboche: “Eles vão matar o viado”. Depois de toda violência e espancamento, ela ainda foi carregada em um carrinho de mão, jogada no chão e recebeu um tiro, que culminou em sua morte. Embora o vídeo seja chocante, foi por meio dele que os policias do 32º DP conseguiram identificar e prender os acusados.

Preferíamos que Dandara estivesse viva e alegre, como sempre foi – bem como todas as travestis e pessoas trans vítimas de crimes de ódio – e que outras ações de sensibilização fossem feitas para que a transfobia cessasse e essa situação de vulnerabilidade do grupo não ocorresse nunca mais. Para os amigos, colegas e familiares ficam apenas a sensação de tristeza, saudade, revolta, sede por justiça e mudança.

Pelo caso e a repercussão, Dandara deixou de ser apenas estatística, um número, um triste dado. Mostrou a cara da transfobia do Brasil ao mundo. Despertou a vontade de que os acusados de crimes transfóbicos sejam punidos, que os direitos da população sejam reconhecidos. E evidenciou que há muita gente na luta. Ela virou livro, foi homenageada por um importante grupo de quadrilha no Ceará, virou documentário.

Mesmo assim, em 2017, ano do assassinato de Dandara, e diante deste cenário assustador, o estado do Ceará foi o que mais assassinou Travestis e Transexuais do Brasil - o estado que aparece nas listas de dados absolutos e em dados proporcionais da ANTRA, que matou Dandara, Herika e tantas outras travestis e transexuais de formas brutais e abomináveis. Que em 2018 apareceu em 4º lugar no ranking dos assassinatos de travestis e mulheres transexuais, em dados absolutos. E que NÃO CONSIDEROU A MORTE DE DANDARA (e tantas outras) COMO CRIME TRANSFÓBICO através do seu governo e da Secretaria de Segurança Pública do estado1.

Por este motivo, escolhemos Dandara para ser homenageada como símbolo de resistência e a lembrança de que nossa luta contra a violência só terá fim quando todes estivermos de mãos dadas junto àquelas pessoas que seguem silenciadas e invisíveis ao olhos da justiça social, do acesso a direitos à cidadania.

  1. https://antrabrasil.org/mapadosassassinatos/Dandara e a Transfobia omitida pelo estado, publicado no Dossiê ANTRA/2018 - Disponível em https://antrabrasil.org/mapadosassassinatos/ - acessado em 07/10/2019

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